Filipe Fernandes é o convidado do mês de agosto da rúbrica “No Interior do Jogo”. Natural de Castelo Branco, fez carreira, a nível nacional e internacional, como jogador, sendo uma das principais figuras do futebol distrital.
Começou a dar os primeiros pontapés na bola no Desportivo Castelo Branco, tendo passado ainda pela formação do Sport Lisboa e Benfica e do Sport Benfica e Castelo Branco. Foi no clube albicastrense que iniciou, ainda Júnior, o percurso no futebol, contando com passagens pelo Campomaiorense, FC Marco, Gil Vicente, AEK Lanarca (Chipre), Sporting Covilhã, GD Águias do Moradal e CU Idanhense.
A AFCB esteve à conversa com Filipe Fernandes, ficando a conhecer o seu percurso desde a infância, as diferenças entre o futebol atual e da sua altura e a experiência no estrangeiro, mais concretamente no Chipre.
AFCB: És natural de Castelo Branco. Como foi a infância? Como surgiu a ligação ao futebol?
FF: Foi uma infância como a maioria dos meninos, com uma bola sempre nos pés e, desde miúdo, que o interesse pelo futebol era real. Na altura, passávamos a maior parte do tempo na rua e não em casa e isso levou a que o gosto pelo futebol surgisse muito cedo.
AFCB: Fazes toda a formação em Castelo Branco - no Desportivo CB e no Benfica CB. O objetivo principal era chegar aos Seniores do Benfica CB ou sonhavas já chegar a outros patamares?
FF: Iniciei em Castelo Branco, no Desportivo CB, com nove anos. Na altura, era logo Infantis, não havia escalões de Benjamins, nem Petizes - não havia nada disso, era logo futebol de 11. Foi engraçado, na altura, jogámos com miúdos com muito mais idade que nós, mas isso também nos fez crescer. Mais tarde, ainda estive dois anos no Sport Lisboa e Benfica. Nas férias, que tínhamos no Natal e na Páscoa, juntamente com alguns amigos de Castelo Branco, que também jogavam no Desportivo CB, fomos para umas férias desportivas em Lisboa, na Escola de Futebol Humberto Coelho. E, nessa altura, com cerca de 11/12 anos, um dos treinadores que estavam nessa Escola e que também estava no Sport Lisboa e Benfica, abordou-me para saber se tinha algum interesse em ir para a formação, para Lisboa, do SL Benfica.
Na altura, a formação não é como agora. As condições e aquilo que é atualmente era muito diferente. Não havia Seixal, os campos eram debaixo das bancadas do antigo Estádio da Luz. Inicialmente, não aceitei, porque ainda era muito novo, mas ainda fui fazer três treinos. Queriam que, na altura, ficasse lá como Infantil, mas o Centro de Estágio só aceitava jogadores a partir dos Iniciados. Já tinha, praticamente, tudo acertado para ficar em casa de familiares em Lisboa, mas no regresso a Castelo Branco, com 11 anos, vinha no carro com o meu pai e comecei a chorar a dizer que não queria ir e que ia ter saudades da família. E, pronto, acabei por não ir nesse ano. Na época seguinte, havia um olheiro do SL Benfica que vinha, várias vezes, a Castelo Branco e dizia sempre: “Filipe, tens que ir, aquilo vai ser engraçado para ti”. E decidi ir, sim, mas já como Iniciado. Fui para Lisboa com 12 anos e fiz o escalão de Iniciados no clube. No segundo ano em Lisboa, em termos de escola, o acompanhamento também era pouco e acabei por reprovar de ano e os meus pais acharam que aquilo não era vida para mim, que os estudos eram a prioridade e voltei para Castelo Branco. Quando regresso, como Juvenil, foi quando ingressei no Benfica CB e disputei logo o Campeonato Nacional.
Sempre tive uma ambição não muito exagerada e muito consciente. O meu objetivo, logicamente, era estar nos Juvenis, fazer o meu campeonatozinho, depois passar para os Juniores e, gradualmente, chegar, se possível, à equipa Sénior - cheguei logo no meu primeiro ano de Júnior. Alguns jogadores da formação foram fazer a pré-época com os Seniores e, na altura, o treinador era o Peres e quis ficar comigo. Foi assim, com 17 anos, que surgiu essa oportunidade. Ainda fiz um ou outro jogo pelos Juniores, mas ingressei logo nos Seniores. O meu objetivo, estando neste patamar tão cedo, era impor a minha posição na equipa principal. Esse era o meu primeiro objetivo. Não podia pedir mais. Sempre fui um bocado cuidadoso naquilo que o futuro podia trazer.
AFCB: Nos primeiros anos como Sénior, estás quatro temporadas no Benfica CB. Como foram estas temporadas? Sentiste muito o salto para o futebol sénior?
FF: Senti alguma exigência diferente, porque, na altura, os Seniores não eram como é atualmente. Normalmente, há muitos jogadores da formação que chegam rapidamente ao plantel sénior, mesmo que não seja para competir, mas para treinar. Antigamente era diferente. Não era fácil, nos meus 17 anos, chegar a um plantel sénior, seja qual for a divisão. Mas tive a sorte de apanhar jogadores de qualidade, experientes e que me fizeram sentir à vontade no grupo, o que ajudou muito. Acabei por me integrar de uma forma natural e, quando se começa a jogar mais, sente-se isso.
AFCB: Em 2001/2002, sais para o Campomaiorense, que estava na II Liga. Como surgiu esta oportunidade e o que te fez aceitar a mudança?
FF: Tinha um colega, com quem joguei no Benfica CB, o Miguel Vaz, que estava no Campomaiorense, e o Diretor Desportivo, António Fidalgo, acompanhava alguns jogos do Benfica CB. E foi assim que surgiu a oportunidade de ir para Campomaiorense. Na altura considerei que era um salto importante. Era uma equipa que tinha descido da I liga e foi um salto grande. Era uma porta importante que se estava a abrir.
AFCB: E como é que foi essa temporada?
FF: Inicialmente, não foi fácil. Não foi fácil, porque lá está, um miúdo, que vem de Castelo Branco, para uma liga profissional, para um clube com alguma história, com alguma marca nos Campeonatos Profissionais, não foi fácil. O treinador era o Diamantino Miranda e também as oportunidades iniciais não foram grandes. Mas sempre me foquei naquilo que era importante e achava que, trabalhando bem e mostrando o meu valor, a oportunidade podia surgir. E a verdade é que acabou por acontecer. Mais perto do final da época, houve uma mudança de treinador, veio um treinador espanhol, o Fábio Gonzalez, que apostou em mim nessa altura, e terminei a temporada a jogar. Senti que, afinal, era possível estar naquele patamar para competir, para jogar e não apenas para treinar.

AFCB: Ficas só uma época em Campo Maior e regressas ao Benfica CB, onde fazes uma época a grande nível, que te catapulta para o FC Marco, que estava na II Liga. Como foram estes dois processos?
FF: O regresso a Castelo Branco prendeu-se por ter de cumprir o serviço militar. Fui para a tropa nessa altura e para continuar a praticar futebol tinha que ficar em casa. Nesse contexto, acabou por surgir o Benfica CB, porque só vinha quase para jogar, não treinava. A meio da época, meados de dezembro, sai da tropa e recebi um convite do FC Marco, pelo treinador que tive no Campomaiorense e que estava no clube nessa altura. Ele precisava de um médio defensivo, mas rejeitei, porque não estava em condições, principalmente físicas, para me sentir útil. O FC Marco estava num campeonato profissional, as exigências eram muito grandes e, nessa fase, raramente treinava, só jogava no Benfica CB. Não seria benéfico para mim, nem para o clube, ir naquela altura. Ainda assim, acertámos para o final da época e assim foi.
AFCB: E como é que foram essas três temporadas no FC Marco?
FF: Na primeira temporada, o treinador que me levou para lá, o Fábio Gonzalez, acabou por sair antes do início da época, mas como já tinha assinado, fui na mesma. Não conhecia o novo treinador e não foi nada fácil no início, mas como confio no trabalho e na competência, sempre acreditei que ia ter o meu espaço. Inicialmente, não fui opção, mas o treinador também saiu, veio outro e, numa oportunidade na Taça de Portugal, acabei por jogar e agarrar o lugar. Terminei a época como titular e o clube convidou-me a renovar contrato.
No segundo ano, fizemos a melhor época de sempre do FC Marco na II Liga e não subimos de divisão por muito pouco. Era um clube humilde, em comparação com outros clubes que subiram, mas fizemos uma temporada fantástica. O terceiro e último ano foi mais complicado, com problemas financeiros, instabilidade no clube, instabilidade diretiva e foi uma época complicada. Não levo, no entanto, isso de uma forma negativa, foi mais uma aprendizagem, porque o futebol ensina-nos aquilo que é bom e também menos bom. Devemos focar-nos nos aspetos positivos, principalmente.
AFCB: Em 2006/2007, segues para o Gil Vicente? Como aconteceu esta transferência?
FF: Quando assinei, em 2006-2007, o Gil Vicente estava na I Liga. Foi na altura do célebre caso Mateus, que desceu na Secretaria. Um dos meus treinadores no FC Marco, foi para o Gil Vicente nessa época e, em conformidade com o Paulo Alves, acabaram por mostrar interesse em mim. Logicamente que não podia recusar, era uma equipa da I Liga e não podia desperdiçar essa oportunidade. O que é certo é que estava de férias nesse ano, em 2006, assinei com o Gil Vicente para a I Liga, mas começaram a surgir notícias que o clube podia descer de divisão devido ao caso Mateus. E assim foi. Aquilo que achava que era uma oportunidade de I Liga... Não me esqueço do primeiro jogo, era contra o SL Benfica, no Estádio da Luz, ainda fomos para Lisboa, ainda fizemos estágio, mas por uma questão administrativa, suspenderam a nossa participação e ficámos sem competir ainda três jogos, acabando por descer para a II Liga.
AFCB: Apesar desse contratempo, foram três épocas com muita utilização…
FF: Sim, o Gil Vicente é um clube que me marca, a cidade, as pessoas, tudo o que envolve o Gil Vicente toca-me. Além de ser bem acolhido, senti-me sempre em casa. Ou melhor, em todos os clubes me senti em casa, mas acho que o Gil Vicente tem essa particularidade de ser um clube de coração, que toca quem está lá. Foram três épocas em que tivemos sempre o objetivo de subir de divisão, mas infelizmente não conseguimos alcançar. Assinei por três épocas e, no último ano de contrato, surgiram outras opções, mais vantajosas para mim, em termos financeiros, não é que o dinheiro me diga muito, nunca me disse nada, mas há oportunidades que surgem e que temos de agarrar.
AFCB: É exatamente nesse contexto que, em 2009/2010, tens a primeira experiência fora do país, no Chipre, para representar o AEK Larnaca. O que te fez aceitar este desafio?
FF: A questão financeira, logicamente, foi importante, porque até dizia, em brincadeira, que o Chipre eram umas férias remuneradas. As condições, o tempo, a ilha, tudo levava a que fosse uma coisa engraçada para mim e para a minha família - na altura já estava casado e já tinha o Martim, o meu filho. Fomos os três para essa experiência no Chipre, tinha algum feedback de lá, mas tinha coisas muito boas e outras muito más. O Nélson Veiga, que foi meu colega, estava no clube e liguei-lhe a pedir mais informações - como é que era o clube, as condições e ele disse: “Filipe, vem para aqui, porque descemos este ano e o clube tem todas as condições, o objetivo é subirmos já para a I Liga este ano, por isso vem que temos todas as condições para fazer uma coisa engraçada”.
E, assim, acabei por acertar tudo e assinar por duas épocas. Fiquei apenas uma temporada, subimos de divisão, a época foi fantástica, um país muito exigente com os estrangeiros, mas quando as coisas correm bem, é fantástico, foi uma época muito boa. No final da primeira temporada, acabei por rescindir contrato, porque, nas férias em Portugal, o Paulo Alves ligou-me novamente a dizer que precisava de mim, que tinham mesmo de subir de divisão e queria o meu regresso. Fui ao Chipre só rescindir contrato e voltei ao Gil Vicente.
AFCB: Que realidade encontraste? Quais as principais diferenças entre Chipre e Portugal, desportivas e culturais?
FF: Em termos culturais, não achei grande diferença. Os portugueses adaptam-se em qualquer canto, não achei nada de diferente. Relativamente à cultura desportiva, estava um bocado diferente, porque já havia muitos jogadores e treinadores estrangeiros e isso levou a que a mentalidade também fosse um bocado mais profissional. Em termos de clubes, acabam por dar mais condições aos jogadores, uma forma de trabalho também diferente, exigente, mas já com nutricionistas, com fisioterapeutas, já trabalhavam muito bem em termos profissionais e tinham uma cultura desportiva interessante. Na altura, havia muitos portugueses que tiveram sucesso no Chipre e, como digo, foram umas férias remuneradas, mas um ano fantástico.