Diogo Pombo, de 26 anos, e Tiago Pires, de 23 anos, são os convidados do mês de janeiro da rúbrica “No Interior do Jogo”. Dois craques do Futebol Virtual, naturais de Castelo Branco, mais conhecidos como “Tuga 810” e “Darkley11”, respetivamente.
O mundo do eSports, ainda é desconhecido para muitos, tem vindo a crescer e a ganhar o seu espaço entre os mais jovens, possibilitando-lhes, entre outras coisas, alguma liberdade financeira.
Este contexto de ascensão da realidade dos videojogos e a participação de ambos no FC Pro Open, competição em que Diogo Pombo qualificou-se para a fase a eliminar, foi o mote para a Associação de Futebol de Castelo Branco (AFCB) falar com os jogadores albicastrenses, dois nomes de peso nacional e internacional do FIFA.
Com vários títulos nacionais e internacionais conquistados, “Tuga810” já foi mesmo considerado o melhor jogador do mundo, ambos praticaram Futebol, em clubes do distrito de Castelo Branco, antes de entrar no mundo dos eSports.
O percurso no FIFA é bastante semelhante. “Darkley11” começou a jogar na TSWarior, equipa do antigo jogador do SL Benfica, Salvio, representando ainda a SAW, uma organização portuguesa, antes de chegar à BetclicApogee, onde está há quatro anos. “Tuga810” iniciou, com uma breve passagem, na Apogee Gaming, passando ainda pelo OffSet eSports, TSWarrrior e Movistar Riders, até ingressar no BetclicApogee.
As parcerias feitas com clubes de futebol, que já estão presentes no eSports, permitiu-lhes representar equipas como o SL Benfica, Arouca, Portimonense FC, Salernitana, de Itália, Málaga, Atlético de Madrid e Girona. Na nova temporada, “Tuga810” irá representar, novamente, o Málaga na La Liga eSports.
Nesta segunda parte da conversa com a AFCB, Diogo Pombo e Tiago Pires abordam as conquistas, os objetivos para o futuro e deixam conselhos aos mais novos.
AFCB: Diogo, já foste considerado o melhor jogador de Futebol Virtual do mundo, em 2022 e, no mesmo ano, sagraste Campeão do Mundo no FIFA eClub World Cup. Além desta participação, tens mais duas participações em Campeonatos do Mundo. Quais as tuas principais conquistas?
DP: Os Mundiais podem ser de três formas diferentes:1x1 - que se chama FIFA eWorld Cup -, de Clubes - conhecido como FIFA eClub -, e há o FIFA eNations Cup - que é entre Seleções. O que conquistei foi o FIFA eClub, quando representava o Movistar Riders. Já estive presente em nove Mundiais – por três ocasiões no 1x1, duas vezes no Mundial de Clubes, em que conquistei um, e em quatro Campeonatos do Mundo por Seleções.
Em Portugal, já ganhei seis títulos 1x1 e, num deles, fui mesmo Campeão Nacional, em 2021. Por Seleções, apesar de já termos chegado a quatro Mundiais, não ganhámos nenhum, o melhor foram os quartos de final. Na altura, houve um título europeu, um qualificador online, onde acabámos por ganhar e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) considerou-nos Campeões Europeus. Nesse mesmo ano, em 2022, foi quando fui eleito o Melhor Jogador do Mundo, no Global Soccer Award, e fomos convidados, pela FPF, para a Gala Quinas de Ouro. Lembro-me que fomos ao palco e tive de discursar, com todas as Seleções Nacionais presentes. Foi um dos momentos mais nervosos que já vivi.
AFCB: Tiago, faço-te a mesma pergunta. Em 2023, foste Campeão da Europa, o que te deu acesso ao teu primeiro Campeonato do Mundo. Que outros triunfos destacas?
TP: Fui Campeão Europeu, mas não foi isso que me levou ao Mundial. Temos os qualificadores, em que ganhei pontos, até fomos a Londres, e qualificamo-nos. Foi o somatório de pontos de todas as provas. Já ganhei algumas etapas em Portugal, mas nunca fui Campeão Nacional no final. No Futebol Virtual, temos competições pela FPF e pela Liga Portugal e já fui Campeão Nacional pela Liga. Na FPF, só ganhei etapas. Já conquistei um Open da FPF, uma Liga, uma Digital, logo no início, e já fui a um Mundial 1x1, na Arábia Saudita.

AFCB: São duas das principais figuras do Futebol Virtual em Portugal. Sentem que já são seguidos por muitos jovens e que são um exemplo para eles?
DP: Sim, sem dúvida. O nosso comportamento e as nossas ações vão moldar os jovens, alguns vêm-nos como referências e o nosso comportamento pode ter influência na vida deles. Há essa responsabilidade que, da minha parte, tenho muita atenção e não quero desprimorar essa vertente social. Sinto que já temos muita gente a seguir-nos e penso que é válido para os dois. Quando estamos em espaços públicos mais frequentados, raramente não há um miúdo a pedir-me uma foto e a dizer que gosta do meu trabalho. São esses momentos e reconhecimento que temos dos mais jovens que nos fazem ver que estamos no bom caminho e que estamos a fazer bem, uma vez que temos a gratidão dos jovens. Tenho um exemplo muito curioso. Na Força Aérea, tenho uma equipa em que já chefio alguns elementos, todos mais velhos, que têm filhos adolescentes, e que me conhecem por também gostarem de videojogos. Quando os pais, que trabalham comigo, descobrem, é um processo muito curioso e acaba por ser muito feliz para mim. É sempre muito gratificante.
TP: Digo exatamente o mesmo. Sempre disse que o meu ídolo, neste mundo dos videojogos, é o Diogo e todos os passos que dou, foi sempre a olhar para ele. Acredito que haja jovens a melhor para nós da mesma maneira e temos de ter cuidado com as coisas que partilhamos e a forma como passamos as mensagens na internet. Há pessoas que olham para nós como exemplos e, se tivermos uma atitude errada, uma criança/jovem pode pensar que isso é correto e que também pode fazer. Gosto de seguir os passos do Diogo, acho que tem uma postura muito boa na vida e, como ídolo, acho que temos de ter esse cuidado.
AFCB: É possível uma pessoa sustentar-se do Futebol Virtual?
DP: Os rendimentos variam muito e o investimento tem sido muito alto. Se chegarmos aos lugares cimeiros dos torneios em que participamos, ganhamos dinheiro como prémio. Estamos a falar de torneios, como o Mundial, em que o vencedor ganha 250 mil euros, por exemplo. Os price-pools, ou seja, o valor total de prémios para a competição, nos Mundiais, pode ascender até a um milhão de dólares. É o maior torneio da temporada, mas os campeões do mundo ganham logo 250 mil euros. Além dos prémios, os vencimentos variam bastante, dependendo da organização em que estamos inseridos e dos patrocínios que investem nessa equipa. Em Portugal, atualmente, já temos mais de 20 jogadores, possivelmente, a receber mais que o ordenado mínimo. Só para jogar Futebol Virtual. Quando falamos dos melhores jogadores, os valores já ascendem a muito mais alto, uma vez que já há equipas interessadas e que pagam para ter os melhores jogadores a competir por eles. Sabemos que há jogadores, os melhores do mundo, a receber mais de dez mil euros de vencimento. Estamos a falar num mundo em que os melhores já ganham muito dinheiro.
TP: Acredito que os jogadores muito bons, em Portugal, ganham todos de dois mil euros para cima, os medianos já ficam entre os mil e os dois mil euros de ordenado, e os jogadores mais iniciais fica ali pelo ordenado mínimo. É, mais ou menos, por esta grandeza de valores. As equipas da Arábia Saudita também estão a querer entrar no mundo do eSports e isso influência logo o valor dos jogadores.

AFCB: Em 2024, a FPF organizou uma competição interassociações, em que a AFCB participou com o jogador João Vaz. Acreditam que Associações de Futebol podem ter um papel importante no crescimento do Futebol Virtual?
DP: Acredito que sim. A maioria dos jovens, que gosta de FIFA, acompanha os profissionais e as live-streams que costumamos fazer, mas para os pais terem conhecimento da existência deste mundo e que pode gerar muito dinheiro e pode dar liberdade financeira à família, as Associações de Futebol têm mais facilidade em comunicar e explicar-lhes este mundo e que o mesmo pode ser bem aproveitado, sempre com responsabilidade, e acima de tudo, oferecer um rendimento financeiro que pode ser importante.
AFCB: Que objetivos ainda têm por atingir na modalidade?
TP: Sempre disse que o meu sonho é ser Campeão do Mundo. Esse é o meu grande objetivo.
DP: Já fui Campeão do Mundo de Clubes. Obviamente que, para um jogador de FIFA, tenho sempre a vontade de ser Campeão do Mundo individualmente, com o meu mérito único. Honestamente, já não existe o eNations, esse seria, talvez, o que me desse mais gozo conquistar, por representar Portugal. Caso não volte no futuro, claro que tenho o objetivo de ser Campeão do Mundo 1x1. Já fui de Clubes, fica a faltar o individual.
AFCB: Vêm-se como jogadores de Futebol Virtual até que idade?
TP: É difícil responder a isso, porque somos a primeira geração a viver deste mundo. Não sabemos até onde é que isto pode chegar. Na minha opinião, como o FIFA é um jogo muito mental, ou seja, perde-se mais do que se ganha, só uma pessoa é que vence o torneio e há muitos concorrentes a competir. Não se ganha sempre e é mesmo muito exigente mentalmente. Pessoalmente, quando começar a ter filhos, largo o FIFA. É o meu limite. Há momentos em que uma pessoa fica muito frustrada com os torneios, porque às vezes a bola não entra, mas fazemos tudo bem. Quando chegar a altura de ter filhos, com 28 ou 29 anos, que ainda falta muito, acredito que deixe o jogo.
DP: Como o Tiago disse, é difícil dizer uma idade para deixar de jogar, uma vez que somos a primeira geração que está a jogar e a viver o momento do eSports profissionalmente. Sei que há jogadores, com cinco-seis anos de competição, que estão na casa dos 29 anos e ainda conseguem jogar ao mais alto nível. A verdade é que aparecem cada vez mais jovens, com 16 e 17 anos, que são muito bons. Temos a noção que, se há jogadores a competir com 20 e muitos anos e 30 anos, até essa idade é possível. Se todas as condições estiverem reunidas, principalmente as mentais, acredito que pode ir um pouco mais além disso. Não temos nenhum exemplo de um jogador profissional já com alguma idade e acho difícil que haja jogadores de nível mundial com mais de 35 anos. Isto é um prognóstico, uma vez que somos a primeira geração, mas daqui a cinco ou dez anos, já se poderá ter uma noção melhor.
AFCB: Na vossa geração, já existem profissionais a deixar de jogar e seguir a carreira de treinador?
DP: Sim, há alguns que deixam o eSports por completo, até porque isto consome muito tempo e, para ser um jogador de top, não dá para treinar uma hora por dia. Se isso acontecer, vou chegar aos torneios e não vou ter um bom rendimento. Há também outros que deixam de jogar e passam para a vertente de treinador.

AFCB: Que conselhos deixam aos mais novos que, tal como vocês já estiveram anteriormente, estão agora a dar os primeiros passos no Futebol Virtual?
TP: Tentem sempre ir atrás de todos os sonhos, mas tenham sempre em atenção que a escola é o mais importante. Há tempo para tudo, para passarem três horas a jogar com os vossos amigos, mas antes foquem-se nos estudos. Acho que é muito por aqui. Temos de ir sempre atrás de todos os nossos sonhos.
DP: Encorajo todos os jovens a correrem atrás dos sonhos, seja o Futebol Virtual ou outro objetivo que tenham na vida. É sempre importante dar tudo para alcançar os nossos sonhos, mas também temos de ser responsáveis e ter os pés bem assentes no chão. Temos de ter noção que, se infelizmente não conseguirmos atingir esse sonho, temos algo em que nos possamos amparar e não ficar totalmente parados mentalmente. Acredito que será sempre possível conciliar as coisas, se assim o quisermos. Quando o ser humano quer algo, consegue. É, no entanto, preciso muita responsabilidade.