Diogo Pombo, de 26 anos, e Tiago Pires, de 23 anos, são os convidados do mês de janeiro da rúbrica “No Interior do Jogo”. Dois craques do Futebol Virtual, naturais de Castelo Branco, mais conhecidos como “Tuga 810” e “Darkley11”, respetivamente.
O mundo do eSports, ainda é desconhecido para muitos, tem vindo a crescer e a ganhar o seu espaço entre os mais jovens, possibilitando-lhes, entre outras coisas, alguma liberdade financeira.
Este contexto de ascensão da realidade dos vídeojogos e a participação de ambos no FC Pro Open, competição que junta os 24 melhores jogadores do mundo e que pode dar acesso ao Mundial, foi o mote para a Associação de Futebol de Castelo Branco (AFCB) falar com Diogo Pombo e Tiago Pires, dois nomes de peso nacional e internacional do FIFA.
Com vários títulos nacionais e internacionais conquistados, “Tuga810” já foi mesmo considerado o melhor jogador do mundo, ambos praticaram Futebol, em clubes do distrito de Castelo Branco, antes de entrar no mundo dos eSports.
Apesar desta realidade, o lado académico nunca foi descurado. Diogo Pombo é mestre em Contabilidade, fiscalidade e finanças empresariais e trabalha na Base Aérea Nº2 da Força Aérea, como Comandante de Esquadrilha de Administração Financeira. Tiago Pires está a terminar a licenciatura em Engenharia Informática, na Universidade da Beira Interior (UBI).
Nesta primeira parte da conversa com a AFCB, “Tuga810” e “Darkley11” falam sobre a infância, como é que surgiu o mundo dos eSports na vida de cada um, além do dia a dia de um jogador profissional, a conciliação, nem sempre fácil, entre o FIFA e o lado laboral/académico e os motivos que levaram às alcunhas pelas quais são conhecidos.
AFCB: São os dois naturais de Castelo Branco. Como foi a infância? Tiveram alguma ligação ao desporto?
Diogo Pombo (DP): Temos três anos de diferença e, apesar termos andado no mesmo Jardim de Infância, ainda não conhecia o Darkley pessoalmente. Mais tarde, fui para a João Ruiz e para a Amato Lusitano e fomo-nos encontrando mais no futebol. Joguei no Desportivo Castelo Branco e, no último ano de júnior, representei o Benfica e Castelo Branco no Campeonato Nacional. Nesta altura fomos conhecendo-nos e, desde aí, sempre nos demos muito bem.
Relativamente ao FIFA, jogo desde criança. Os meus pais sempre disseram que, com dois/três anos, quando deram a primeira consola ao meu irmão mais velho, já era eu que jogava e sempre fui jogando. Como gostava muito de desporto e, principalmente de futebol, gostava muito de jogar videojogos de futebol, neste caso o FIFA. Curiosamente, inicialmente era PES (Pro Evolution Soccer) o jogo que mais praticava. Quando fui crescendo, com os meus amigos, fazíamos aqueles torneios em casa e ganhava sempre, mas numa vertente muito amigável. Nunca me tinha passado pela cabeça ser um jogador profissional, até porque nem sequer sabia que isso existia. Só em 2015-2016, tive conhecimento de uns torneios online e inscrevi-me, mas sem nunca competir ao mais alto nível.
Tiago Pires (TP): Desde muito novo que comecei a jogar futebol, no Desportivo Castelo Branco e, nos Infantis, mudei-me para o Benfica Castelo Branco. Sempre conheci o Diogo, uma vez que ele é da geração do meu irmão mais velho e jogavam na mesma equipa. Olhava para eles como mais velhos e, como tal, há sempre mais respeito. Nunca tivemos uma grande ligação, porque três anos naquelas idades faz diferença, mas lembro-me de o ver no futebol e no Jardim de Infância. No 11º e 12º ano, o Diogo foi para o Benfica Castelo Branco e, nessa altura, já nos cruzávamos mais nos treinos.

AFCB: Quando é que perceberam que este lado do FIFA podia ser levado mais a sério e de forma mais profissional? Como é que foi o início desta caminhada?
DP: A primeira vez que comecei a jogar mais a sério foi no final de 2018, graças à minha mãe. Na altura, ela trabalhava na Escola Secundária Amato Lusitano e viu um cartaz, em que iria realizar-se um torneio, organizado pela Câmara Municipal de Castelo Branco, onde havia jogadores profissionais que iam participar na competição. Acabei por me inscrever e ganhei o torneio. Foi aí que me apercebi que se calhar, se me focar e levar isto com mais seriedade, a coisa podia dar-se. Nesse ano, em 2019, passei de um jogador não profissional para a realidade mais competitiva e, no meu segundo torneio profissional, ganhei a vertente da Playstation e só perdi contra o Textor, que tinha vencido a parte de Xbox. Nesse mesmo ano, qualifiquei-me para o Mundial, em que estavam os melhores 32 jogadores do mundo. Foi, de facto, uma ascensão que nunca imaginava e que se deu no espaço de um ano. Desde aí apercebi-me que, além do talento, o esforço e a dedicação, podiam trazer-me muito sucesso. Desde 2019 que tenho competido e nunca perdi o gosto por jogar. Neste momento, com 26 anos, sei que a maioria dos jogadores profissionais são mais novos, mas nunca perdi o gosto e acho que nunca o perderei. Até ao presente, gosto muito de jogar.
TP: Comecei um pouco mais tarde no FIFA, mas sempre fui jogando videojogos. O meu irmão, por exemplo, era mais viciado. Como moro numa aldeia perto de Castelo Branco, sempre fui mais de andar na rua, de bicicleta e jogar futebol. Costumo dizer que as coisas foram acontecendo de forma natural. A minha entrada para o mundo competitivo foi a ver o Tuga810 (Diogo Pombo), porque sabia que ele era de Castelo Branco. Em 2019, vi-o a participar e a ganhar o torneio em Atlanta, nos Estados Unidos da América. Isso despertou algo em mim. Apercebi-me que ele era de Castelo Branco, uma pessoa como eu e estava a fazer um bom dinheiro. Isto surge na altura do Covid-19, em que deixei de ter aulas e tive mais tempo para jogar e fui começando a participar em torneios, a melhorar e comecei a entrar para equipas. Foi assim que as coisas foram acontecendo.
AFCB: Como jogadores profissionais, como é o vosso dia a dia? Quantas horas jogam e treinam quantas vezes por semana?
DP: Como o FIFA sai todos os anos, em que a base do jogo é a mesma, mas há vários detalhes que mudam e, apesar de serem coisas mínimas, fazem toda a diferença para um jogador demorar mais ou menos a adaptar-se. Falando no meu caso, nas primeiras duas/três semanas após o jogo sair, facilmente despendo entre oito a dez horas por dia, para conseguir apanhar todos os mecanismos e detalhes – golos e fintas - da nova versão. Isso demora muito tempo a aprimorar, porque são totalmente diferentes das versões anteriores. Como tal, nas primeiras semanas de jogo, temos de gastar muitas horas a jogar. Quando já estamos dentro da mecânica, já reduzo bastante as horas e, nos dias normais, como trabalho, jogo três a quatro horas por dia. No entanto, quando estou perto de torneios, volto a aumentar as horas, para ter mais ritmo competitivo e estar no ponto – volto a dispensar cinco a seis horas por dia. Quando os torneios acabam, há ali um ou outro dia de pausa. O FIFA é um jogo muito mental e temos de estar frescos e essa pausa é sempre benéfica para alivar o stress mental do jogo.
TP: Comigo também é muito parecido. Temos ali duas a três semanas de pausa no verão, para transitar de uma versão para a outra e acabamos todos por ter esse tempo no início, em que gastamos mais horas e, antes dos torneios, voltamos a aumentar o volume de tempo.
AFCB: Mas têm treinadores individuais? Alguém que “ande em cima de vocês” para controlar quantas horas jogam?
TP: Não é assim tão rigoroso, mas sim, cada um tem o seu treinador individual. O ano passado até partilhava o mesmo com o Diogo, mas este ano é diferente. Cada um tem os seus métodos de treino, mas no FIFA acaba por ser muito jogar, analisar os possíveis adversários e estudar as bolas paradas. É isso que, basicamente, fazemos com os nossos treinadores. Antes dos torneios também nos juntamos todos, normalmente em Lisboa, numa casa, e treinamos. Pessoalmente, sinto que, nestes momentos, o nosso nível aumenta muito, uma vez que é 24 horas a falar, jogar e a trabalhar no jogo. Acredito que isso é muito bom e gosto muito destes momentos.
DP: É um sistema um pouco híbrido. Não estamos sempre a ser pressionados pelos treinadores, porque há matérias, como bolas paradas, em que é necessário um treino coletivo para perceber os melhores mecanismos, ou alguns desafios dentro do jogo, que nos permitem ter melhores cartas, faz com que, obrigatoriamente, tenhamos de juntar-nos e, coletivamente e em equipa, perceber qual a melhor forma de atingir o melhor resultado. Também temos o nosso tempo livre para, individualmente, trabalharmos o nosso jogo e, neste aspeto, a equipa dá-nos mais liberdade para treinar. É um sistema híbrido, em que sabemos a nossa responsabilidade de trabalhar sozinho e temos sempre isso connosco, para não falharmos em nenhum momento.

AFCB: Para quem não está tão dentro da realidade do Futebol Virtual, como é que vocês explicavam este “mundo”?
DP: É difícil de explicar, porque, até antes de entrar, também desconhecia. Sinto que, pelo facto da maioria das pessoas ainda desconhecer esta realidade, ainda há alguns comentários relativamente ao investimento feito no mundo da eSports. Atualmente, os miúdos preferem consumir conteúdo do Youtube e ver os profissionais, em detrimento de estarem colados à televisão a ver os canis tradicionais. Este interesse dos jovens também faz com que haja muito investimento nesta área. Vivemos num mundo em constante adaptação e o eSports é relativamente recente, em comparação com os trabalhos tradicionais, e são novas oportunidades para os jovens, financeiramente, terem uma base salarial. Sinto que os pais têm a preocupação de não deixarem os filhos jogar tantas horas por dia, porque podem facilitar nos estudos, mas existem muitos exemplos, como o meu e do Tiago, em que jogamos e estudamos e trabalhamos. Atualmente, já se consegue mostrar aos pais que é possível conciliar os videojogos com os estudos. Há sempre espaço para tudo e, se formos responsáveis, dá para conciliar as duas coisas.
AFCB: E esta conciliação entre os videojogos e o lado profissional/académico é fácil de gerir?
TP: É difícil, mas acho que dá para conciliar, como tudo na vida. A verdade é que temos muitas viagens - para Lisboa, para o Porto ou para o estrangeiro – e há alturas em que não tenho paciência para olhar para um caderno e estudar. No entanto, tem de ser, estamos metidos nisto e, se queremos atingir os nossos objetivos pessoais, temos de nos sacrificar para lá chegar. Acredito que é muito isto. Sabemos qual é o nosso caminho, tenho os meus objetivos e, seguramente que o Diogo tem os dele, sentimos que isto faz parte da nossa vida e com foco dá para conciliar tudo. Com maior ou menor dificuldade, dá sempre para conciliar. É algo que me mudou a vida e, se olharmos para trás, todo o sacrifício destes três, quatro, cinco anos, valeu a pena.
DP: Não é nada fácil, porque chegamos a um ponto em que o mundo profissional do FIFA é tão elevado que, por vezes, treinar quatro horas, em vez de seis ou sete horas, pode ser prejudicial por outros profissionais que fazem disto vida. A nível do sacrifício, há muitas coisas que têm de ser sacrificadas. Todos temos 24 horas disponíveis, não conseguimos fazer tudo aquilo que pretendemos e é preciso fazer escolhas, como por exemplo, sair à noite ou a vida social. O esforço é muito grande, só as pessoas que passam por esta situação é que conseguem perceber o valor que tem de ser dado. Apesar deste esforço e sacrifício, no final, a recompensa e o reconhecimento das pessoas pelo nosso trabalho ou por ganhar um torneio, é muito superior ao esforço e sacrifício exigidos. O sucesso nunca vem garantido e tem de haver sempre esforço, consistência e dedicação. Estas são as chaves para o sucesso e, como queremos chegar lá, vamos fazer questão que isso aconteça.
AFCB: Têm os dois alcunhas. O Diogo é o “Tuga810” e o Tiago é o “Darkley11”. Como é que surgiram estes nomes?
TP: O meu é simples. Os meus pais estavam a levar-me para a escola e estava a criar uma conta e, quando estava a chegar aos Redentoristas, estava uma loja chamada “Dark” e o jogo deu, automaticamente, o resto. E como era o número 11 no futebol, ficou Darkley11. Foi desde o Clash Royale, basicamente.
DP: Antigamente, tinha uma conta no FIFA com o user “DPombo 45” e o número era porque, na altura, gostava do Mário Balotelli e ele usava o número 45. Mais tarde, o meu pai criou uma conta, porque também gosta muito de jogar videojogos, e chamava-se “Tuga810”, o oito era o número que o meu irmão utilizava no futebol e o dez era o meu número no futebol e juntou os dois. Acabei por ficar esse user e utilizo até hoje.
