Mário Freitas é o convidado de março da Rúbrica “No Interior do Jogo”. Apesar de não ter nascido no distrito de Castelo Branco - natural de Mogadouro, em Bragança -, foi no Fundão que encontrou a sua casa desportiva e onde está há várias temporadas.

Capitão da Associação Desportiva do Fundão, está ligado ao Clube há 12 épocas não consecutivas e é uma referência no Futsal Distrital e Nacional.

Além do conjunto fundanense e do CA Mogadouro, o Futsalista representou o Sporting CP e o SL Benfica, sendo Internacional português, por 34 ocasiões, tendo conquistado a Finalíssima pela Equipa das Quinas.

A AFCB esteve à conversa com Mário Freitas, abordando o processo formativo, dividido entre o Futebol e o Futsal, e a ligação ao Fundão e ao Clube, onde, admite, já viveu grandes alegrias.

AFCB: Como foi a infância? Como surgiu a ligação ao Futsal?

MF: Foi uma infância muito feliz, com muita liberdade, com muita brincadeira, sempre com a bola debaixo do braço, é algo que me recordo. Sempre à procura de um sítio para jogar, fosse na rua, num ringue, fosse onde fosse. Na altura ainda havia essa possibilidade de jogar na rua, jogávamos muito na rua. A ligação nasceu primeiro com o Futebol e, só mais tarde, com o Futsal. Costumo dizer a brincar que nasci e cresci no balneário. O meu pai e o meu padrinho foram jogadores de Futebol, então lembro-me de ser muito pequeno e já acompanhar o meu pai nos treinos, já estar com ele no balneário, um pouco à imagem do que faço agora também com o meu filho.

Apesar de ter essa ligação toda que falei, jogar federado foi por acaso. Comecei no Futebol 11. Joguei, provavelmente, o último ano em que num escalão tão baixo, neste caso nos Infantis, ainda era Futebol de 11. Só no ano a seguir é que passou a ser Futebol de 7. Comecei com sete ou oito anos, salvo erro, e como disse, foi por acaso que comecei federado. Porque não existia o meu escalão, não havia qualquer equipa na minha idade. Então um dia, fui acompanhar um vizinho meu mais velho a um jogo. Na altura, era escolinha, tinha sete ou oito anos, eles teriam 11 ou 12 anos, ou seja, havia aqui uma diferença de quatro anos. Nós andávamos sempre juntos, vivíamos talvez a 100 metros do campo de futebol. Ele ia ter jogo e acompanhei-o para ir ver a partida dele e de outros amigos que tinha. Lembro-me que faltavam dois ou três jogadores para completar a convocatória. Então esse meu amigo virou-se para o treinador e disse: “o Mário, o Mário está aqui”. Toda a gente já me conhecia, porque o meu pai tinha uma ligação forte e foi um histórico do Futebol ali da zona. O meu amigo perguntou se podia entrar, se podia jogar e lembro-me perfeitamente como se fosse hoje. O treinador aceitou de imediato e disse que só tinha de ir a casa buscar a cédula – na altura, era o documento de identificação –, o material e regressar ao campo. Como morava relativamente perto, cheguei depressa e disse à minha mãe que ia jogar. E foi assim que começou, por acaso, no Futebol Clube Mogadouro, onde o meu pai também jogou praticamente toda a carreira.

Recordo-me que os meus colegas eram muito mais velhos e que jogava 5/10 minutos por partida. A partir daí, na época seguinte, Infantil Futebol 7 e quando passei para Iniciado, como não havia equipa nesse escalão, fui com os meus amigos para o Futsal e ficou esta paixão que ainda permanece atualmente.

AFCB: O teu processo de formação é dividido entre o Futebol e Futsal…

MF: Sim, é verdade. Ao contrário do que, felizmente, acontece atualmente, que já se inicia no Futsal e faz-se o todo o percurso formativo na modalidade, eu andei aqui um bocadinho entre o Futsal e o Futebol. Nas duas temporadas de Iniciado, pratiquei Futsal e, no meu primeiro ano de Juvenil, já jogava também pelos Seniores, no Académico de Mogadouro, que disputava a III Divisão. Só que, no final dessa época, o meu pai, que jogou sempre Futebol, desafiou-me a experimentar o Futebol 11. Na altura, um bocadinho contrariado, acabei por ir e joguei Futebol no segundo ano de Juvenil e no primeiro de Júnior, até regressar novamente ao Futsal.

AFCB: Neste período de formação, fazes amizade com um jogador de futebol bastante conhecido – o Pizzi. Como surgiu esta amizade?

MF: A relação com o Pizzi nasceu nas Seleções Distritais, nos Interassociações. Ele é um ano mais velho, mas íamos sempre juntos - até a escalões acima do nosso – e erámos colegas de quarto. Quando mudo para o Futebol de 11, vou jogar para o Distrital de Seniores. Aquela temporada corre muito bem, inclusive acabei por ser o melhor jogador do Campeonato Distrital Sénior, destaquei-me também na Seleção Distrital, em que o Pizzi jogava num lado e eu no outro. Fizemos um brilharete na competição, eliminámos a Seleção Distrital de Braga e, no final dessa época, o Pizzi vai para o Sporting Braga e eu acabo por ir para o Vitória SC. Ao longo desse ano, o CA Mogadouro estava a lutar para subir à I Divisão Futsal, estavam sempre a insistir para voltar e, como o bichinho sempre esteve lá e era aquilo que realmente gostava de fazer, voltei à modalidade.

AFCB: És natural do Mogadouro, um concelho do distrito de Bragança, também no interior, um pouco à imagem do distrito de Castelo Branco. Sentiste mais dificuldades em vingar no Futsal por seres de uma zona do interior?

MF: Óbvio que há algumas dificuldades, inerentes a não estarmos no centro do país, mas não nos podemos agarrar só às dificuldades. E acredito que atualmente, com toda a tecnologia existente, conseguimos chegar muito mais facilmente à imagem. Se um miúdo da formação se estiver a destacar, é muito mais fácil chegar ao radar dos grandes clubes. Como o meu antigo treinador, Joel Rocha, sempre disse e que também me agarrei a essa ideia – “interioridade não é inferioridade”. Muito pelo contrário. Acredito que acabamos por ganhar outras virtudes e fazer dessa interioridade uma força. Agora, temos de trabalhar e dar o máximo e não nos lamentarmos por sermos de distritos do interior. Quem trabalha, acaba sempre por ser recompensado.

AFCB: Apesar de não seres do distrito, estás cá há vários anos. O que representa o distrito e o Fundão para ti?

MF: Já significa casa. É verdade que já são 12 anos e a forma como me sinto, tanto no Fundão, como no distrito, desde o primeiro momento, a forma como fui recebido, como as pessoas me tratam, o carinho que me transmitem, faz-me sentir em casa. E o Fundão tornou-se uma paixão, o clube, a cidade, o distrito de Castelo Branco, ou seja, já tem muito significado para mim e, como disse, já significa casa. Não nasci aqui, mas sinto-me um filho adotivo, um filho da terra e a verdade é que, desde o primeiro momento, sinto-me muito bem.

AFCB: Após o regresso ao Futsal, em 2010/2011, vais para o Sporting CP. Que idade tinhas e como surgiu a oportunidade e foi a adaptação?

MF: Tive a felicidade ou “a sorte” de, na altura, estar na I Divisão. Se atualmente, os miúdos têm a facilidade das redes sociais e o scouting está muito mais desenvolvido, no meu tempo, a minha visibilidade foi através do CA Mogadouro, na I Divisão, e dos Torneios Interassociações. Quando regressei para o Futsal, no meu segundo ano de Júnior, fui logo integrar a equipa Sénior na I Divisão, com 17 ou 18 anos. Até janeiro jogava pouco, estava a readaptar-me à modalidade e, a partir de Janeiro, comecei a jogar com alguma regularidade. No meu segundo ano no Clube, dá-se uma explosão, com 18-19 anos, em que fui peça fundamental na equipa, faço 21 golos na I Divisão, conseguimos a manutenção – ainda com os play-outs, que eram uma pressão enorme - e dá-se esse interesse.

Na altura, fala-se no Sporting CP, no SL Benfica e em mais clubes com outro poderio e que lutavam por outros objetivos. Naquela altura, as Seleções Nacionais não tinham tantos escalões, só havia alguns estágios em que iam os jogadores que se destacavam. Já tinha ido a alguns e dá-se o interesse do Sporting CP. Curioso que a primeira abordagem acontece numa fase muito inicial da época, ou seja, já tinham ali alguns feedbacks positivos, fosse da época anterior, dos estágios das Seleções ou dos próprios torneios. Acabo por aceitar a oferta do Sporting CP, mas só vou no final da época, com 20 anos.

Foi uma realidade completamente diferente. Estava no CA Mogadouro, a “lutar para não descer”, e vou para uma equipa que tinha a ambição de lutar pela Liga dos Campeões. Passo a jogar com jogadores que eram referências no Futsal Nacional – como o João Benedito, Alex, Déo, João Matos, Cary. Tudo isso, aliado à mudança de clube, sair também de Mogadouro para Lisboa, passei a morar sozinho, tive de fazer coisas que não estava habituado... Mas lá está, isso faz parte, se queremos crescer, temos de dar esses passos, e essas dificuldades tornam-nos muito melhor, não só como jogador, mas também como pessoa. E essas experiências todas, que vamos acumulando ao longo da vida, fazem-nos mais maduros. São lições para a vida.

AFCB: Como é que corre essa época no Sporting?

MF: Em termos desportivos, não fui tão utilizado como gostaria, ia jogando aqui e ali. Vinha de uma época em que tinha somado muitos minutos, fazia golos, era importante, mas tive de perceber que cheguei a uma realidade completamente diferente, a um patamar de exigência altíssimo, em que tive de aprender coisas que não estava, obviamente, habituado. Houve situações, a nível tático, para as quais não estava preparado. Se na altura me perguntassem, claro que queria jogar muito e todos os jogos, mas não estava preparado. Tive essa perceção que tinha de trabalhar, aprender e crescer muito. E cresci. Foi um ano de aprendizagem, um ano de sucesso desportivo, porque acabei por ser Campeão Nacional, ganhar a Taça de Portugal, a Supertaça e ir à final da Liga dos Campeões. Foi um ano brutal de crescimento, que me deu uma bagagem para as épocas seguintes.

AFCB: Consideras que ter feito a formação entre o futebol e o futsal foi uma vantagem?

MF: Não tenho dúvidas que se tivesse feito tudo no Futsal, não que hoje olhe para isso como uma dificuldade, provavelmente nessa experiência que tive no Sporting CP, iria estar preparado de outra forma. Sou de uma geração que ainda havia muito esta realidade - eram poucos os jogadores que faziam a formação toda no Futsal. Atualmente, felizmente, praticamente todos os miúdos, que estão hoje a aparecer, fizeram a formação no Futsal. E chegam muito mais bem preparados aos Seniores, no que toca ao conhecimento do jogo, apesar das diferenças existentes entre a Formação e os Seniores.

AFCB: No ano seguinte, vais por empréstimo para a AD Fundão. Acredito que o objetivo fosse voltar ao Sporting CP, não?

MF: Sim, quando cheguei ao Fundão estava longe de imaginar que se tornasse esta paixão tão forte. Na altura, tinha a possibilidade de continuar no plantel do Sporting CP, sabendo que a utilização ia ser reduzida, ou ser emprestado – havia várias equipas interessadas. Como queria e precisava de jogar, analisámos todas as opções e escolhemos a AD Fundão – estava destinado que assim fosse. Obviamente, quando vim para cá, por empréstimo, o objetivo era sempre regressar ao Sporting CP, porque essa era também a ideia do treinador da altura. Entretanto, as coisas mudaram e esse técnico também acabou por sair.

A primeira época na AD Fundão também não foi fácil. Apesar de vir do Sporting CP, não deixava de ser um miúdo de 20 anos ainda, com muito para aprender e crescer, mesmo que já tivesse a experiência no CA Mogadouro e bastantes minutos na I Divisão. Foi uma época de aprendizagem, em que jogava muito mais tempo que no Sporting CP, mas foi essencialmente um ano de crescimento, aprendizagem, em que cresci muito e foi fundamental para o meu percurso. Atualmente, há a tendência dos miúdos que chegam de clubes grandes, acharem que isso vai ser garantia de somar minutos, mas não é assim. Também têm de perceber que o salto, muitas vezes, quando vêm da formação dos clubes grandes, é enorme e foi isso que senti, apesar de já vir dos Seniores do Sporting CP. Senti que ainda precisava de crescer muito, precisava de acrescentar ao meu jogo coisas que não tinha e foi uma temporada fundamental no meu crescimento e importantíssimo para o meu percurso.

AFCB: A verdade é que te dás bem por cá e, além da época de empréstimo, ficas mais três temporadas, em que registas muitos jogos e golos. Como foram estes anos?

MF: Foram épocas muito, muito boas. O treinador Joel Rocha foi fundamental no meu crescimento e no meu percurso. Acho que não vou cometer nenhuma inconfidencialidade. Lembro-me perfeitamente de estarmos na UBI, em estágio, e o mister Joel chamar-me ao quarto dele, logo na pré-época, e termos ali uma conversa-chave para o que iria ser o resto do meu percurso e do meu crescimento. Ele teve uma conversa importantíssima comigo, do que pretendia de mim ao longo daquela época e, a partir desse momento, deu-se um clique no meu percurso e tornei-me fundamental na equipa. Sempre a crescer, cada vez mais, principalmente a nível de números. Tornei-me cada vez mais importante na equipa e foram épocas fantásticas.

AFCB: Em que o ponto alto, acredito, tenha sido a conquista da Taça de Portugal em 2013/ 2014?

MF: Não há dúvidas que o ponto alto, principalmente em termos coletivos, foi essa temporada. E acho que mesmo nós, Clube, mesmo pessoas da região, não têm noção do feito, da dimensão do feito. Passados dez anos, acho que muitas vezes ainda não há essa noção. Nos últimos 15 anos, a única equipa que tinha ganho troféus, além do SL Benfica e Sporting CP, tinha sido a AD Fundão. Entretanto apareceu o Sporting Braga, mas não é semelhante, porque o orçamento é equivalente aos dois clubes de Lisboa. Conseguimos intrometer-nos na luta. E, nessa época, estava tudo destinado para que isso acontecesse. A forma como trabalhávamos, a qualidade dos jogadores, a qualidade do grupo enquanto família… parecia que estava tudo destinado a que isso acontecesse. Curiosamente, lembro-me que a época não começou bem. Tínhamos um plantel com muita qualidade – André Sousa, Pany Varela, David Moura, André Navais -, mas os resultados estavam a ser algo irregulares. Ganhámos um jogo, perdemos outro, mas nunca deixámos de trabalhar e de acreditar naquilo que estávamos a fazer.

O Joel Rocha quis colocar o lugar à disposição e todo o plantel não deixou e a Direção também não queria, porque achávamos que, apesar dos resultados estarem a ser irregulares, estávamos a trabalhar bem. Era uma questão de tempo. E depois, dá-se ali um clique que, olhando para trás, acredito que possa ter acontecido na 1ª eliminatória da Taça de Portugal, que acabámos por ganhar, onde eliminámos o Sporting CP, fora de casa. Acho que aí deu-se um clique que era possível e, a partir desse momento, independentemente do adversário, acreditávamos que podíamos ganhar. Terminámos a Fase Regular em 5º lugar e ganhámos a Taça de Portugal, onde eliminámos o Sporting e, na final, ganhámos ao SL Benfica.

Nos Play-Offs do Campeonato Nacional, vencemos os Leões Porto Salvo, que tinha sido o 4º classificado, ganhámos novamente ao SL Benfica na meia-final e, na final, o Sporting CP foi mais forte e triunfou por 3-1 no conjunto de jogos. Há uma alteração importante feita pela FPF. Na altura, os encontros eram seguidos – sábado e domingo – e agora há uma semana de intervalo e acho que é fundamental. O nosso plantel não era um assim tão vasto e sentimos isso. Costumo dizer que nunca me senti tão cansado como entre sábado e domingo dos jogos aqui no Fundão. Lembro-me que estava desgastadíssimo e ainda jogámos no dia a seguir os 40 minutos, mais o prolongamento. Infelizmente, o finalista ainda não ia à Liga dos Campeões, algo que acontece atualmente. Mas foi uma época histórica. A partir desse momento, deu-se uma mudança no paradigma do Clube, do próprio distrito, o que significa a AD Fundão para o Futsal, não só distrital, mas também nacional. Atualmente, a AD Fundão é um grande e histórico do Futsal Português.

Após essa temporada, fomos a mais finais. Na seguinte, disputámos a Supertaça e fomos, novamente, à final da Taça de Portugal, em que perdemos para o SL Benfica – já com o Joel Rocha do outro lado e o Bruno Travassos como técnico na AD Fundão. Já tivemos também em finais da Taça da Liga. A AD Fundão é das equipas com mais finais disputadas no Futsal Português.